Levantando o Astral

Ele era bonito demais para ela. Ficou se perguntando se o interesse existia de verdade, ou se era o que tinha pra hoje. A falta de opção e a preguiça, às vezes, faz com que as pessoas diminuam seu nível de exigência no amor!

Quando, ao passar para o banheiro do badalado barzinho, o viu encostado à parede, uma perna flexionada, braços cruzados no peito, aquele olhar negro e profundo, músculos bem definidos, coxas grossas, disse para si mesma: – muita areia para meu caminhãozinho, mas eu dava umas três viagens!!! – Entretanto não se animou. Sabia que a concorrência era cruel e que existiam algumas mulheres no local que não precisavam de muito esforço para conquistar um homem lindo daquele.

No banheiro, em frente ao espelho, deu aquela melhorada no rosto, retocou o batom e até se achou bonitinha, efeito do sol que havia deixado um ligeiro tom rosado em sua pele. A boca carnuda destacava-se com um pouco de brilho e os olhos estavam mais claros que de costume. Os cabelos longos, pretos, lisos e brilhantes, sempre chamavam a atenção de todos, principalmente das mulheres, já que homens não ligam pra esses detalhes. Homens gostam de bumbum e coxas, e isso ela não tinha muito. Não tinha nada, aliás. Magrela e sem nenhuma graça, nunca foi chamada de “gostosa” ao passar por uma construção, e essa era sua maior frustração. Baseada nos relatos de algumas mulheres, esse era o teste de fogo: peões de construção. Se não assobiassem, se não gritassem “gostosa”, podia desistir da carreira.

Deu uma última conferida no visual e saiu do banheiro, já quase esquecida do bofe sarado que tinha chamado a sua atenção. Ao passar por ele, ouviu um comentário sobre o tempo, algo como: – Muito calor por aqui, não? – Olhou para trás, para o lado, para o outro, quando percebeu que era com ela que o bonitão tinha falado. Nesse momento, o calor se intensificou consideravelmente. Sentiu a garganta seca, pensou em sair correndo (era tímida), mas pensou que aquela era uma rara oportunidade, como há muito não tinha: levantar sua autoestima.

Com um sorriso insuportavelmente cativante, o moreno iniciou uma conversa da qual ela não se lembra bem, já que estava meio inebriada com tanta beleza e masculinidade, mas de uma coisa tinha total consciência: estava muito feliz. Tinha sido notada e teria a chance de mostrar que era sensual, que era bonita, que era cativante, que podia ser um mulherão. E agarrou essa oportunidade com unhas, dentes e cérebro!

Após algumas horas de muita conversa, sorrisos, gargalhadas, papos profundos e filosofias de mão única, choros e todos os estágios que permeiam uma noite de paquera, rolou uma química, pintou o clima e deram-se aquele beijaço. A princípio ela achou que havia bebido demais, que aquele enjôo passaria quando comesse algo ou tomasse um engov…mas depois percebeu que o enjôo tinha outra fonte: o beijo não era bom, o perfume era ruim, a pele era áspera, o nariz era estranho, os músculos enormes e o cérebro não tanto. Naquele momento ela entendeu. Naquele momento soube que era perfeita para alguém, assim como havia o perfeito para ela.. e não era o moreno lindo.

Ao se despedir, se esquivando dos convites para estender a noite, pensou consigo mesma: – Tenho um caminhão enorme para desperdícios com pouca areia…vou aguardar a próxima viagem. E foi dormir, se sentindo a “gostosa” da construção.

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