Filha de verdade

Nasceu meu neto. Na verdade ele é filho da minha filha emprestada, a qual me recuso a chamar de enteada. Filha do meu marido, a conheci pessoalmente quando tinha 9 anos, e foi amor à primeira vista. Baianinha criada no ceará, tinha um sotaque todo próprio e especial, me deixava fascinada. Lembro de um dia, quando pedi para que jogasse uma água fora e ela usou o termo: “- vou rebolar a água fora…”. Ou então quando dizia com aquele jeitinho que me eternecia: “- vou banhar!”, termo usado para tomar banho.

Mas nem tudo são flores. Aos 12 anos ela veio morar conosco, sua mãe, generosamente, permitiu que eu pudesse ter um contato maior com ela, mas foi na idade mais crítica que isso poderia ter acontecido. Tive que corrigir, fui dura, tentei ensinar tudo o que eu sabia e o que minha experiência de vida dizia que seria bom pra ela no futuro. Brigamos, rimos, choramos e nos conhecemos como deveríamos, mas ela sentia falta da sua terra, da sua mãe, da sua família materna e se foi. Eu e seu pai sofremos muito, mas queríamos que ela fosse feliz, mesmo longe da gente.

Aos 15 anos ela voltou. Veio mais madura, mais paciente, mais amiga, mais tudo. Foi minha companheira o tempo todo, assistíamos filmes agarradinhas, passeávamos juntas, cantávamos juntas, conversávamos por horas sobre muitos assuntos e, naquele período, foi a consolidação da maternidade. Ela era minha filha, mesmo não tendo saído de mim. Eu a amava incondicionalmente e quase morri de tristeza quando ela decidiu voltar para sua mãe novamente. Hoje aos 18, e já mãe, deve saber e sentir todo o meu amor, deve saber que sou sua mãe, independentemente de qualquer coisa, sou avó de seu filho que já amo como tal, e tudo isso para provar que a maternidade não está na barriga, está na cabeça e no coração.

Ela vai trazer meu neto para conhecermos, e já estou ansiosa e aflita, pensando em mil coisas para fazer com ambos. E há quem diga que “mãe emprestada” não é igual às mães biológicas……

Te amo, filha.

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