Minha mãe

Estranho eu não conseguir falar dela desde que partiu, há 6 anos. Foi uma relação tão complexa, cheia de altos e baixos, porém tão cheia de amor que dói entender o quanto perdi, o quanto deixei de ter, aproveitar, curtir.

Desde muito cedo já sentia a distância, já que eu era a caçula temporã, nascida quando ela já tinha 45 anos, o que nos afastou muito. Nunca foi minha amiga. A figura da minha irmã mais velha que eu sete anos era mais próxima a uma mãe do que a própria…. por trabalhar fora, deixava-nos, normalmente, aos cuidados de uma babá ou da minha avó, figura essa que reconheci como minha educadora, aquela que me ensinou a cozinhar, que me contou histórias e que se tornou a minha primeira perda definitiva e traumática. Minha irmã cuidava realmente de mim. Da higiene à educação escolar, sempre pude contar com suas orientações e ensinamentos que, graças aos céus, foram perfeitos. Mas da minha mãe herdei o gosto pela literatura e pela música; ela passava grande parte dos seus dias lendo, além de cantar como um passarinho!

Eu não me dei conta da incapacidade e frustração que ela sentia quando percebeu que não podia me controlar. Eu era uma adolescente terrível, espirituosa, cheia de vontades e teimosias, nunca me dobrei às ordens de pai e mãe. Ela não soube como lidar com isso e me “despachou” para morar com meu irmão mais velho em outro estado, longe dela 1000 quilômetros, aos 19 anos. Como deve ter sido difícil!

Então eu pude sentir o que era ficar longe de uma mãe. Sentia falta do cheiro, da voz, do bolo de chocolate, do peixe, da roupa lavada. Na verdade, sentia falta do carinho, do amor de mãe. E então só voltamos a viver juntas quando eu já tinha mais de trinta anos, meu pai vegetando sobre uma cama e ela enlouquecida, perdendo seu chão, perdendo a única coisa que amou na vida, que era seu marido.

Triste vê-la daquele jeito, deprimida, perdida! Eu e minha irmã começamos a reconhecer aquela mulher como deprimida por toda uma vida. Ela nunca foi diferente, essa é a verdade. Nunca foi feliz, não sorria muito, não reconhecia a velhice, não gostava da velhice, tinha claros problemas de autoestima e nós, adormecidas, não percebemos isso antes para tentar ajudá-la.

Ao perder meu pai, ela entrou em um mundo só dela, desenvolveu uma doença neurodegenerativa chamada demência com Corpos de Lewy, “prima” do Alzheimer, que a levou para longe de nós.

A depressão aumentou, já não nos reconhecia às vezes, criou neuroses e paranoias horríveis e sofria visivelmente com sua condição. Nós, os filhos, sofremos junto. Eu sempre me perguntava como poderia fazê-la feliz por mais um minuto que fosse…. achava na música um motivo para ver seus olhos recuperarem um pouco do brilho da lucidez, mas era por pouquíssimo tempo. Logo ela voltava para sua concha e nos deixava de fora. Por diversas vezes perdi a paciência e me condeno por isso, mas, em minha defesa, devo dizer que não tinha a menor ideia do que era essa doença e de como deveríamos agir. Eu quis muito recuperar o tempo que perdi, me arrependi de todas as formas pelo sofrimento que causei a ela quando adolescente, mas já era tarde.

Ela se foi após ter uma noite de lucidez, quando nos reconheceu e disse que nos amava. Estava sentindo dor, já às portas da morte. Foi uma das piores dores que já senti em minha vida. Trocaria de lugar com ela se pudesse salvá-la. Ficou um vazio enorme, uma sensação de que não tinha mais ninguém por mim, que agora eu estava sozinha no mundo. O porquê desse sentimento eu não compreendo, já que nós fomos tão distantes!

Seis anos se passaram e ela ainda vive aqui dentro com muita intensidade. Penso nela todos os dias, cito suas frases, conto suas histórias, lembro do seu aniversário com saudades. Ontem ela teria feito 97 anos e eu olhei suas fotos para postar em uma rede social, e a dor voltou a latejar como naquele dia. Eu acho que vou levar para o túmulo essa tristeza e ausência, talvez por guardar dentro de mim uma culpa que talvez não tenha, e não consiga me perdoar por isso.

Levo da vida e morte da minha mãe algumas conclusões: Devemos viver intensamente a presença da nossa família e das pessoas que amamos, elas podem não estar mais aqui amanhã; defendo o egoísmo, devemos nos amar muito e cuidar para que sejamos felizes, mas não nos custa olhar à nossa volta e tentar perceber se a mãe, o irmão, o amigo não precisam de um ombro amigo, de uma ajuda para fugir da depressão, de alguém que lhes dê um motivo para respirar e sorrir; e por último, e não menos importante, devemos aprender a nos perdoar. Somos humanos e passíveis de erros, mas aprendemos com a dor. Perdoem-se, amem-se e amem a sua família e amigos. Nós não nascemos para viver sozinhos, precisamos desse aconchego, desse amor.

À minha mãe só agradeço por continuar me ensinando, mesmo depois de sua partida. Sinto falta, sinto amor, sinto saudades.

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