Hoje quero falar dela…

Falar da minha avó é sempre um prazer… mulher forte e suave, educada à moda francesa em sua infância abastada. Educava com firmeza, mas nunca erguia a voz. Lembro com saudades do gosto da sua comida, do seu cheiro de talco, das histórias contadas no final da tarde; me ensinou a cozinhar, mas nunca fiz uma comida como aquela. Foi-se aos 90 anos, num dia de carnaval…eu já morava em Salvador e não pude viajar para vê-la partir, mas soube de sua ida no meio da rua, ao som de um trio elétrico. Segundo minha mãe, foi lúcida e despediu-se de todos os filhos e netos presentes, mas perguntou se “eu não iria”! Chorei o resto do carnaval e muitos e muitos anos depois, inconsolável que fiquei. Por diversas vezes liguei para sua casa na esperança de ouvir seu “alô” inconfundível, mas só conseguia vê-la nos meus sonhos, que foram muitos: sempre me abraçando e beijando, com um sorriso nos lábios e muitas, muitas flores ao redor. Hoje, 29 anos após sua partida, ainda sofro quando lembro dos nossos natais, réveillons, sextas-feiras santas, quando nos reuníamos para comemorar e jogar buraco entre família, ela sempre na cabeceira segurando as cartas com a mão esquerda, canhotíssima que era, e a quem puxei. Pena não ter puxado seus olhos azuis, sua educação e sabedoria e a sua força de matriarca da família, em volta de quem todos se reuniam. Saudades e amor eternos, Dona Antônia!!

Sol Sampaio

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